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12/02/2020 17:52:02 -
Perspectivas do setor
Uma olhar sobre o futuro da agropecuária alagoana

Poucos são os profissionais com conhecimento técnico e experiência suficientes para fazer um prognóstico da agropecuária alagoana. Noel Loureiro é um desses estudiosos que dedicam a vida a analisar as mudanças no setor. Não é à toa que o assessor técnico da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de Alagoas – Faeal – tem sido presença marcante em eventos como o Congresso Cidades e Gestores, promovido pela Associação dos Municípios Alagoanos – AMA – e, mais recentemente, o Workshop Potencial de Desenvolvimento em Alagoas: Energia, Infraestrutura e Negócios, realizado na Ufal. Em entrevista ao Senar, Noel fala sobre as perspectivas para 2020, destaca a atividade canavieira, a pecuária de corte e a silvicultura. Confira:

Em linhas gerais, quais as perspectivas para a agropecuária alagoana em 2020?Noel Loureiro – A perspectiva é de consolidação da atividade canavieira no nível de produção atual, que representa 60% do que as nossas usinas já produziram. Além disso, haverá o incremento de outras atividades que estão se consolidando, a exemplo da pecuária de corte e a silvicultura baseada no eucalipto.

O que influenciou para que a atividade canavieira tivesse essa retomada após uma crive grave?
NL – Essa retomada tem como fulcro o clima, não está relacionada a grandes investimentos no setor. Nós tínhamos 37 usinas em 1990, hoje temos umas 13, mas, apesar da crise, a queda da produção não foi proporcional a esta redução de empresas. No auge, as usinas alagoanas chegaram a produzir 30 milhões de toneladas de cana, depois essa capacidade caiu para 13 milhões e agora está na faixa de 16 milhões de toneladas, pouco mais da metade. Em 2020, tudo indica que ficaremos nessa faixa, entre 16 e 18 milhões de toneladas.

Qual é a importância dessa recuperação do setor canavieiro?
NL – É a capacidade que o setor tem de gerar empregos, sobretudo, os formais. Há uns três ou quatro anos, Alagoas era o terceiro estado brasileiro com o menor grau de informalidade no campo por conta das usinas de açúcar. A atividade canavieira é muito fácil de ser fiscalizada pelo Ministério do Trabalho, porque você tem duas, três mil pessoas trabalhando concentradas em local de fácil acesso. Portanto, as usinas têm muita formalidade. No melhor momento econômico para o setor, nosso estado chegou a registrar entre 45% e 46% de informalidade no campo. No Nordeste, quem chegava perto era Pernambuco, que tinha pouco mais de 65%. No Maranhão, 90% das pessoas trabalhavam informalmente no setor agrícola. Isso é um problema muito sério por conta da previdência. De qualquer forma, quem trabalha na informalidade um dia vai para a previdência e a conta será paga pelos trabalhadores formais.

E com relação à pecuária, qual é a perspectiva em Alagoas?
NL – Tradicionalmente, o empresário, sobretudo o pequeno, fornecedor de cana, sempre teve a pecuária como uma poupança. Agora, ainda sob o efeito da crise no setor canavieiro, ele está sendo incentivado a transformar a pecuária numa atividade-fim, mas, se quiser ficar neste setor, terá que se modernizar. Neste contexto, o papel da Faeal e do Senar Alagoas tem sido muito importante, com a oferta de cursos e programas como o Mais Pasto, que ensinam técnicas modernas para aumentar o rendimento da atividade. Estima-se que em Alagoas a gente tenha um rendimento médio de 4 arrobas por hectare/ano. Isso significa, mesmo com os preços atuais, pouco mais de R$ 800,00 por hectare de faturamento. Só para efeito comparativo, a cana-de-açúcar chegou a render R$ 6 mil por hectare de faturamento, muito acima. Portanto, quem quiser permanecer no setor da pecuária de corte precisará ter muita produtividade e, para isso, tem que se capacitar. Nicho de mercado há. Alagoas é um estado periférico, nós somos importadores de carne, então, há um espaço grande para a produção local. Para isso, precisamos de grandes frigoríficos para fazer abate programado, até mesmo para a exportação de carne. Já somos zona livre da aftosa, um trabalho liderado pela Faeal, daqui há um ou dois anos não teremos nem mais vacinação. Isso é um diferencial muito grande.

E a pecuária de leite?
NL – É um nicho que continua estável. Seu crescimento depende muito de políticas públicas específicas, a exemplo do Programa do Leite, mas atualmente nós temos uma produção mais alta do que em anos anteriores, em números absolutos. Do ponto de vista proporcional, é uma atividade que se mantém, pois nós já temos expertise. A chegada da Natville, prestes a ser inaugurada em União dos Palmares é importante, contribuirá para o fortalecimento da produção de leite, mas, naturalmente, a Zona da Mata exige soluções diferentes do Sertão. Às vezes você tem o problema do carrapato, doenças que são comuns, mas hoje em dia há raças mestiças, como o Girolando, que resistem bem. Além disso, a pecuária de leite segue sendo a alternativa viável para quem tem pequenas propriedades, já que a pecuária de corte demanda grandes áreas. Se tivéssemos em Alagoas um matadouro frigorífico com escala de abate, poderíamos fazer confinamento. Mas nós não temos e o gado confinado tem hora para entrar e para sair do pasto, senão o produtor fica no prejuízo.

Que outra atividade deve se fortalecer em Alagoas?
NL – A silvicultura, principalmente com o eucalipto, que está se desenvolvendo bastante e com algumas interfaces. Por exemplo, você pode plantar eucalipto só para ter floresta, mas também para fazer a integração floresta-lavoura-pecuária, o que abre um leque fora do comum. O mundo caminha para um cuidado muito forte com o bem-estar humano e animal. Se você integra, trabalha com áreas sombreadas. Para quem trabalha no sol de meio dia, em um clima como o nosso, isso significa três ou quatro graus a menos na temperatura. Além disso, é melhor para o animal, que se estressa menos e se alimenta mais, e reduz a difusão de doenças porque, em geral, quando não se tem uma floresta desse tipo, os animais tendem a se amontoar embaixo de poucas sombras e isso aumenta o risco de contaminação por esterco, entre outros meios. Então, a integração floresta-lavoura-pecuária, com o eucalipto, já apresenta bons resultados em Alagoas e tende a se consolidar.